A Forma da Água é muito Del Toro. E nós amamos isso. Tem, basicamente, tudo o que você espera desse homem. Uma direção magnífica com uma ambientação impecável. Design pensado em cada detalhe, um roteiro que alimenta bem todos os personagens e não deixa nenhuma ponta. Tem também aquela vibe de fábula do Del Toro, onde a sensação de deslumbramento por aquele mundo fantástico colide com uma estranheza bem-vinda. Alias, A Forma da Água é sim um conto de fadas para adultos. Por tanto, vá preparado para assistir todas as nuances do gênero: o vilão caricato, a mocinha sonhadora e esperta, um romance meloso, os amigos que são tão alívio cômico quanto suporte para as ações da “princesa”. Isso tudo com uma pitada de erotismo.

O filme é ambientado em meados de 1960, década em que a guerra fria estava no auge. É nesse cenário que a criatura entra. Capturada na Amazônia pelo exército americano, ela fica confinada em um laboratório experimental secreto do governo. É lá que nossa mocinha, Eliza, se apaixona pelo monstro. Esse background é o cenário perfeito para construir uma trama de mocinhos e bandidos e revisitar o cinema antigo – com muitas referências a vários clássicos.

Sobre os atores, Sally Hawkins arrasa. Ela dita o filme através de expressões faciais e gestos. Basicamente todas as cenas de Eliza exigem uma carga emocional profunda, sendo se masturbando na banheira (sim, tem isso <3 ) seja olhando pela janela do ônibus. O outro destaque é o (sempre) ótimo Michael Shannon, que entrega caras e bocas de um vilão que convence. Você consegue sentir ódio, raiva e empatia pelo personagem.

No fim, A Forma da Água é um filme para se colocar naquela lista de o que você tem que assistir antes de morrer. Nos dias de hoje, funciona em todos os aspectos: direção, roteiro e discurso. Entrega ainda uma boa crítica ao preconceito às minorias – pontuada quando mostra o ódio aos negros, preconceito com gays e até mesmo no romance principal tão “fora da caixa”.

Sobre o visual do filme… Esse merece um destaque próprio.

Desenhando A Forma da Água

(Este pedaço contem alguns spoilers em imagens)

O filme é lindo e dá a sensação de ter sido milimetricamente desenhado. A princípio, A Forma da Água foi pensado em preto e branco. Quando Del Toro viu o filme colorido desistiu dessa ideia e criou uma paleta de cores que funciona como um storytelling próprio dentro da narrativa. O verde e o ciano, por exemplo, estão em todas as cenas e ditam o tom do filme, remetendo sempre a água. O vermelho aparece em alguns detalhes de cena, remetendo ao amor e ao cinema. Já o apartamento de Eliza tem um tom de embaixo da água, com iluminação escura, muitos tons de azul e ciano – um habitat perfeito para a criatura. Em contraste, o laboratório é cinza e marrom, com apenas alguns tons de verde que indica que a criatura está/esteve por lá.

Já o design da criatura é outro destaque. Para produzir o mostro, Del Toro usou o ator Doug Jones – mesmo que fez a criatura pálida do Labirinto do Fauno – combinando um traje/ prótese com efeitos de edição.

Todos esses detalhes de direção de arte e conceito demoraram dois anos para serem desenvolvidos. Esse processo de construção ajudou Del Toro a vender o filme, pois foi até as produtoras já com grande parte das cenas e, principalmente, visual conceito pronto.

Veja abaixo um pouco dessa construção.